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Reciclagem pode ampliar receita de condomínios

O que fazer com 3 toneladas de resíduos sólidos por dia? Esse é o volume produzido pelo Conjunto Nacional, um dos mais tradicionais prédios da mais conhecida avenida de São Paulo, a Paulista. Com 735 estabelecimentos comerciais, 47 apartamentos residenciais e uma população fixa de 5 mil pessoas e flutuante de 30 mil, o condomínio decidiu reciclar e vender. A renda, embora pequena, é suficiente para bancar as festas de confraternização de funcionários e os gastos de um grupo de corrida composto por moradores do edifício.

O Conjunto Nacional é um dos pioneiros e tem um dos sistemas de coleta seletiva mais complexos de São Paulo. FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO

Embora reciclagem e venda não garantam uma renda elevada – no caso do Conjunto Nacional são obtidos apenas R$ 1.750 por mês – a solução vem sendo adotada por condomínios, principalmente por aqueles que produzem grandes volumes de resíduos sólidos. Entre as vantagens, estão a possibilidade de aplicar o valor arrecadado em melhorias, reduzir o valor das contas de luz ou ainda realizar doações para cooperativas e entidades assistenciais.
No Conjunto Nacional, o sistema de coleta seletiva surgiu por uma questão de logística. “Nosso problema era o alto custo de retirada do lixo produzido pelo condomínio”, conta Vilma Peramezza, síndica responsável pela implementação do projeto, que funciona desde 1992. Segundo ela, a coleta da prefeitura era insuficiente para todo o volume produzido. “Alguns prédios solucionaram o problema parcialmente, vendendo os resíduos para catadores da região, mas percebi que a maior parte do lixo que produzíamos podia ser aproveitada.”

Materiais recicláveis são prensados ou picotados e saem do Conjunto Nacional já em fardos. FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO

Com um financiamento pelo então Unibanco Ecologia, a síndica instalou uma pequena usina no subsolo do prédio. Com o tempo, a instalação foi ampliada e capaz de separar materiais, picotar papel e prensar papelão e latinhas. “Os moradores só precisam separar o lixo em dois sacos diferentes: recicláveis e não recicláveis. Depois disso, a equipe de limpeza toma conta e deixa os materiais já em fardos, prontos para serem direcionados para cooperativas de reciclagem”, explica Vilma.
Condomínios menores, sem estrutura, têm outras opções disponíveis. O Mood, localizado na região central de São Paulo, encontrou em um programa da Eletropaulo uma solução viável para a coleta seletiva.
Criado em 2013, o ‘Recicle mais, pague menos’ conta com 27 pontos de coleta espalhados por São Paulo e recebe, em média, 120 toneladas de material reciclável ao mês. Os moradores que entregam recicláveis recebem descontos na conta de energia. Cada produto tem um valor diferente.
“O material é enviado para uma recicladora, que separa os reciclados e envia cada tipo para determinado fornecedor”, afirma Roberto Podesta, consultor de eficiência energética da empresa. Em cinco anos, a Eletropaulo registrou 53 mil participantes, que reciclaram 6 mil toneladas de resíduos.
“Registramos mais de R$ 900 mil em descontos na fatura da energia. Ainda este ano, bateremos a meta de R$ 1 milhão”, diz Roberto. Além da vantagem financeira, o projeto também resultou em uma economia energética de 27 mil MWh, valor equivalente ao consumo mensal médio de 180 mil famílias.
No Mood, que reúne mais de 500 moradores, cada unidade é responsável pela sua própria conta de luz. Todos os inscritos no programa recebem o desconto, aplicado individualmente. “Nesses 6 meses, consideramos que a implementação foi um sucesso”, conta o síndico Luis Gustavo. “Percebemos que o programa incentivou a participação de quem não se importava com a coleta seletiva”, afirma o concierge do prédio, Rodrigo Costa.
Doações: Fabrizio Bopp, gerente de sustentabilidade da Eletropaulo, diz que o programa também acaba adotado para fins filantrópicos. “A doação pode ser direcionada para entidades sociais previamente cadastradas na iniciativa ou outras escolhidas pelo cliente”, afirma. “Além disso, um condomínio consegue, por exemplo, reverter a renda para pagar a conta de energia de um ou mais funcionários”.
No edifício Copan, outro prédio tradicional de São Paulo, a coleta seletiva foi implementada há 25 anos. “Produzíamos 3 toneladas por dia e era necessário um caminhão só para o nosso condomínio”, conta Affonso de Oliveira, síndico do prédio. Mesmo com a redução da produção – hoje em torno de 2 toneladas –, a quantidade ainda exige medidas específicas. “O orgânico é retirado por caminhão alugado, mas reciclamos o resto”, conta Affonso.
Para o síndico, a geração de renda com a reciclagem é baixa demais para ser utilizada efetivamente para o condomínio, mas pode ajudar muita gente. “Três vezes por semana, entregamos o material para diferentes entidades assistenciais ou empresas que descartam corretamente. Não ficamos com nada, nosso objetivo é ajudar.”
Administração: Podesta, da Eletropaulo, acredita ainda que projetos alternativos de coleta seletiva reduzem significativamente os gastos dos municípios com gerenciamento de lixo. “A partir do momento em que fica claro que a responsabilidade sobre o resíduo é do gerador, a prefeitura não precisa mais ter gastos para ‘caçar’ todo o lixo produzido. Os próprios moradores podem entregá-lo, reduzindo significativamente os custos de coleta”, diz. Para Fabrizio, a mudança de mentalidade é necessária. “As pessoas pensam em ‘botar o lixo para fora’, mas não há o ‘fora’. É a cidade em que elas moram”, afirma.

Alexandre Furlan, fundador do Instituto Muda Crédito: Silvia Zamboni/Divulgação

“Explicamos como fazer a limpeza, o que pode ser reciclado, enfim, tiramos todas as dúvidas”.
Para o executivo, o sucesso da implementação de um programa de coleta seletiva depende da adesão de todos os interessados. “Não adianta o morador dizer ‘não preciso aprender, a funcionária vai fazer para mim’. Nós não aceitamos condomínios em que os moradores ajam dessa maneira”, diz. “Fazemos um trabalho de conscientização para explicar que, a partir do momento em que você gera um resíduo, você torna-se responsável por ele. Quando as pessoas entendem isso elas aderem muito bem à ideia”.
O instituto cobra a taxa mínima de R$ 350 mensais para implementar o projeto em um condomínio. O valor, no entanto, varia de acordo com o número de unidades – cada apartamento paga, em média, R$ 10 por mês. A renda obtida pelo instituto com a reciclagem, que chega a R$ 75 mil por mês – aproximadamente R$ 625 por condomínio – não é revertida aos prédios, mas destinada à cooperativas de reciclagem. Em alguns casos, os condomínios recebem de volta produtos feitos a partir do que foi descartado, como detergentes produzidos a partir de óleo de cozinha reciclado.
Para André Fazzolari, síndico de um condomínio localizado no Alto de Pinheiros e participante do projeto do Instituto Muda, facilidade é a palavra-chave para o sucesso da empreitada. “A parte da retirada é sem dúvida a maior dificuldade para os condomínios, que ficam dependentes dos horários da Prefeitura, quando há disponibilidade, ou ainda de catadores”, afirma.
Em relação aos moradores, segundo ele, o procedimento ficou muito simples. “Subimos duas vezes por dia em cada apartamento para buscar o lixo, eles só precisam separar em duas sacolas diferentes. Essa facilidade foi um incentivo fundamental para que todo mundo entrasse no jogo”, conta.
Prefeitura: Alguns condomínios podem contar com a coleta seletiva da Prefeitura municipal de São Paulo, que recolhe papel, plástico, vidros e metais. O programa contempla universalmente 50% dos distritos da cidade. Em outros 50%, o serviço é parcial e alguns distritos contam apenas com algumas ruas servidas. Para ruas não contempladas, o cidadão conta com poucas outras opções, como os Pontos de Entrega Voluntária (PEV´s).

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